quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Raul

Escarrou um pretinho de si depois de muito gemer de dor. O menino era especial, o leite que viria a chupar das tetas de sua mãe não seria o mesmo leite das outras mães.
Não seria esses garotos que vivem nas ruas chutando bolas improvisadas ou empinando desses papéis de seda ou sacolas plásticas  nas margens paulistanas. Seria médico, sairia da favela e moraria nas melhores casas da elite, cuidaria dos melhores doentes, acharia a cura para o câncer e AIDS se fosse preciso! O pequeno girino não se misturaria com a gentinha da classe C, da qual fazia parte, ficaria em casa lendo Paulo Coelho, escritor que para a mãe só os ricos de gosto refinado liam, e estudando dentre outras coisas conservadoras. A velha enchia a cara de sorrisos quando tocava no assunto.
O sorriso se desfez depois que o menino cresceu, estava saindo o contrário que sua genitora havia planejado. O guri pegou gosto pela rua, caiu na bôemia, nunca leu Paulo Coelho, mas gostava de Charles Bukowski e anarco comunismo, o pior de tudo foi o muleque ter entrado pra política, apanhava dos coxinhas e era dito como baderneiro.
E sua mãe, pobre coitada, caia no desgosto, a cólera que tinha pelo filho arranhava-lhe a garganta a cada vez que via o menino sair de casa com a porra daquele símbolo anarquista cravado no peito. O menino estava fazendo letras, na Unifesp! Letras! Desde quando ser professor dá dinheiro? Mesmo que  fosse na Unifesp, era letras! E ainda queria ser ator para piorar! Assim a mãe morria e não dava jeito.
Depois da adolescencia, não se olhavam mais, não conversavam, nem se cumprimentavam. Antes só brigavam, agora nem mais isso. O garoto tinha dúvidas se choraria ou não no enterro da mãe.
No seu aniverário de 21, foi comemorar num bar do centro com os amigos. Um facista com dor de corno, abriu as tripas dele e depois saiu correndo, todo mundo correu. Deixou 200 reais, 90 textos marginais, uma namorada e uma mãe doente que se quer foi ao seu enterro.

5 duendes dançando tango:

  1. Deixou 200 reais, 90 textos marginais, uma namorada e uma mãe doente que se quer foi ao seu enterro...

    Sei lá por que, mas de repete fiquei pensando no que eu vou deixar. Acho que não muito também.

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  2. Ok, bom saber que você não parou de escrever, e eu acho bom a senhora postar mesmo!

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  3. Eta caramba. Deixou só isso. Que merda.
    E que historia moça, me prendeu até o fim. Quando ela foi no enterro dele.
    Muito incrível esse texto. mESMO. Bjws.
    Até logo.

    http://semguarda-chuvas.blogspot.com/

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